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segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Deixa rir

Nasci em um país democrático. Vivemos em uma democracia. Ao menos, é isso que eles nos dizem. Ao menos é isso que sei. Aqui, no país do futebol, onde as grandes corporações midiáticas estão nas mãos de poucos, onde a arte é feita em todos os cantos, onde muitos artistas sobrevivem dessa arte, onde o ensino engatinha no bê-á-bá tentando tomar forma, sem forças para se unir a universidade. Aqui, no país do carnaval, nos fazem rir de tantas formas. Aqui, nesse país das paisagens belas, nos tiram os últimos trocados; levam a nossa dignidade na primeira esquina que cruzamos. Aqui, no país democrático, situado na América Latina, somos movidos a Leis, não que isso nos torne um país onde a justiça é levada a sério. Não. Aqui, adoramos as Leis. Isso, não quer dizer que as Leis de trânsito, por exemplo, sejam respeitadas. Aqui, nesse país democrático, onde a censura é coisa do passado não aceitam jornalistas diplomados. Não querem cidadãos bem informados, não aceitam crianças bem nutridas crescendo em convergência com o mundo.

Aqui, somos um povo sorridente. Afinal, temos motivos para tanta felicidade. Nossas crianças estão na escola (não importa o descaso com os professores), somos um país em pleno desenvolvimento, somos o país da Copa de 2014, das olimpíadas em 2016 (não importa a nossa infra-estrutura, para isso, temos dinheiro). Somos o país das grandes indústrias. Somos o país das fontes naturais (não importa se tratamos o lixo com descaso). Somos o país dos grandes: poetas e escritores e atores; somos o país da literatura (mesmo que nossas crianças cresçam longe dos livros, e cada vez mais íntimas das conversas virtuais). Somos o país onde o nosso sistema de saúde funciona perfeitamente bem. Enfim, somos um povo feliz! Mesmo que ao chegar na “terceira idade” tenhamos que nos submeter à aposentadoria. Somos brasileiros!

Não desistimos nunca. No Brasil, desde 1997 a Lei eleitoral, proíbe que “emissoras de rádio e TV usem trucagem, montagem ou outro recurso de áudio ou vídeo que, de qualquer forma, degradem ou ridicularizem o candidato, partido ou coligação”. Enquanto isso, eles nos fazem rir nos programas eleitorais veiculados na televisão. Enquanto isso, humoristas, dançarinas, sorrisos soltos e tantos outros nos mostram que o melhor caminho ainda é se enveredar para política (caso a fama não seja um estrondoso barraco). Enquanto isso, eles nos fazem rir de todas as formas nos empulhando em horário nobre, um humor de primeira. Sem ridicularizar ou degradar.

Eles estão tirando sarro da nossa cara! Não temos mais humor levado a sério. Não podemos mais rir da desgraça, digo da nossa desgraça política. Os humoristas do nosso país democrático não podem mais satirizar os candidatos. É lei. Vamos obedecer! Tem muita e tanta coisa na televisão brasileira, nas rádios das nossas cidades e na internet que nos agridem tanto ou mais, do que era feito. Há tantos outros programas que ridicularizam os cidadãos, que vendem o ilusório (...). Mas eles não se importam com os nossos anseios, com o que almejamos, com o que nos aflige.

Fato é que os mesmos que defendem a desregulamentação da profissão do jornalista, que censuram o humor nas mídias, que querem nos calar de qualquer forma, não têm interesse que este nosso espaço público seja mediado por profissionais. Tanto faz se for de uma forma coerente, bem humorada, satírica. Fato é que, eles não querem cidadãos com conhecimento, eles não aceitam esse tipo de confronto. Eles podem. Nós devemos nos calar. Neste período, o sorriso vai ser largo, vai soar falso, assim como as palavras; as promessas vão ser cômicas, vão invocar a Deus, vão difamar companheiros; que depois vão se unir para ocupar os cargos que restaram. Neste e em tantos outros períodos, vão nos fazer rir de tanta canalhice, eles só querem o nosso povo feliz, é de coração. Nada particular. Eles querem o poder. Seja no humor, na comunicação, na educação, seja o poder do livre-arbítrio. Eles não querem doutores em ciências humanas. Enquanto isso, me seguro pelas bordas.

terça-feira, 1 de junho de 2010

(Re) Construindo

Abandonei esse espaço. Mas por alguns bons motivos. Passei dias e meses me dedicando ao Trabalho de Conclusão do Curso, no qual rendeu a nota máxima. Depois, foram dias, organizando a festa e o discurso da formatura. Com o verdadeiro valor da virtude da paciência. Dedicação e amor a um objetivo nos beneficiam com momentos belos, únicos, divertidos e de muita felicidade, com a certeza de mais uma etapa concluída. Guardo na minha caixa aqueles momentos.

Depois da monografia existe vida, e latente, intensa, pedinte de movimento, ao menos pra mim. Busquei livros, cursos, provas. E fui atrás. Numa destas leituras desse mundo, encontrei ótimos autores, que servirão para discussões futuras neste espaço (sim, mais do que nunca voltei), agora cursando especialização na área, necessito deste exercício. Mendoza, em La islã inaudita, discorre na introdução do livro A construção da notícia de Miquel Rodrigo Alsina sobre a verdade e o valor que nela consiste. O meu horizonte cognitivo está entre estes meios e processos. E este mundo onde estou submersa está consistentemente imerso nas notícias, informações e na construção destas com a realidade. Já que “o jornalista é um produtor da realidade social” segundo Alsina, todas estas vertentes cá estarão. Todas as que estão submersa: a arte, os absurdos da vida, o jornalismo e a cidadania.

“Você sabia que algumas destas estrelas que agora você vê aí, na verdade, já se apagaram há milhares de anos, mas que, por causa da sua distância, continuamos percebendo sua luz e admirando o que já não existe mais? Isso demonstra até que ponto nos é fácil enganar e sermos enganados. No entanto, quanta importância damos à verdade! O senhor não acha?” (MENDOZA, E. La islã inaudita. Barcelona: Seix Barral, 1989, p. 125-126).


Muita paz!