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terça-feira, 17 de agosto de 2010

Tempo e espaço

Cinquenta e oito horas desconectada, sem celular, sem internet, sem computador, sem rádio, sem música. Apenas os livros e um par de família e cinco horas de viagem e aquele destino. Uma partida para o lugar simples. Que parece mais longe deste mundo quando a estrada de terra aparece. As lembranças se achegam devagar. A noite gelada e o vento nos abraçam. A senhora que nos recebe na casa de madeira, tem o rosto triste, mas a alma bela e um coração gigantesco. Abraça com os braços de quem acolhe, protege e não quer deixar partir. É feita de fibra e raça e sensibilidade. É mulher admirável, não somente por ser mãe da minha mãe, mas por ser sensível, simples, ter uma história linda e por manter o amor há mais de cinquenta anos. Na casa da Vovó a cama prontinha nos espera, o aconchego é simples, mas ali temos a certeza de que temos o essencial para vivermos em paz, sossegados do mundo, como ela vive. Ela ainda quer ser independente, apesar das poucas limitações e os cuidados essenciais que a sua idade nos exige. Resmunga sozinha por causa da tramela da porta, admira-se frente às novas tecnologias trazidas pelo meu irmão no computador, controla a sua dieta, organiza sua casa, é zelosa com os netos, e também não sabe onde essa juventude vai parar. Mas, não sorri mais na hora do retrato. Seus oitenta e três anos são sentidos pela ausência do seu par. Falta. Quanta falta ele faz. Mas ela não deixa cair.


Para aqueles campos abertos onde a vista perde o sentido, procura o infinito, encontra luzes e estrelas sem fim. Retrato da família na mesa da saleta, aconchego de Vovó, comida de tia, receptividade encantadora. As tantas horas até lá, recompensam o caminhar sem pressa, sem hora para voltar. Sem compromisso. Sem espaço, no ciberespaço. Se há mais de dez anos atrás quando todo mundo nas grandes cidades, que podiam pagar por uma internet discada, começavam a se conectar em rede, em São Pedro do Butiá - RS, na região das Missões, a luz era artigo de luxo para quem morava na cidade. “Butiá”, ainda tem a maioria da sua população de 2.744 habitantes vivendo na zona rural, é uma cidadezinha bonita, mas simples. Uma cidade que desde 2008 ostenta a estátua de São Pedro, circundada pelo Centro Germânico Missioneiro, seus trinta metros de altura despontam mesmo sem a sua iluminação característica. A cidade ganhou um local onde a história da imigração alemã é recontada, e a estátua ganhou destaque no jornal Zero Hora, pelos tantos zeros que foram investidos.


A comunidade de Santa Terezinha, onde está à casa da vovó, é distante cerca de 8km da cidade. No final dos anos 90, o asfalto nem cruzava as cidades, apenas um telefone para toda uma comunidade ligava-os com o mundo. A comunicação era quase restrita. Os correios até lá não chegavam (e ainda não chegam). Algum político olhou para aqueles cidadãos. Meu avô Arthur, então comprou uma geladeira, um freezer para o leite e as carnes não estragarem, teve enfim, direito a banho quente (um chuveiro que não era feito de lata) e um banheiro de verdade. Comprou uma televisão a cores, antena parabólica, mas o radinho a pilhas não foi deixado de lado, ainda está lá. Na casa ao lado, a casa da Tia Rosa e do Tio Dionísio, a mesma cronologia, com a adesão do celular e mais recentemente, a máquina digital. Em breve, a internet também vai chegar e irá fazer parte das suas vidas, não apenas o
Orkut, e as outras ferramentas de conversação. Mas toda a sua gama de oportunidades e possibilidades que ela traz. Ela chega até a igreja da comunidade, e dali não passa, mas ali, há muita empolgação com estas novas tecnologias.

“Butiá”
não está mais “isolada” do mundo, mas mesmo assim, lá na casa da Vovó é possível sentir um isolamento, é sem fim. É ar aberto e puro e belo e simples e acolhedor. Viajo mais algumas horas e perco o jogo do meu time, por não ter um rádio digital ou a pilhas, mas meu corpo está descansado, a mente tranquila, tudo certo para recomeçar a rotina. Com a certeza de que não fico desconectada do mundo virtual por mais de três dias. Nas últimas férias, corri para a única Lan House em São Pedro do Butiá, precisava ao menos ver a minha caixa de e-mails. Mas ali, caminho de olhos bem abertos. Onde a noção de tempo e espaço diferem-se dessa em que vivo normalmente. Neste ciberespaço, retorno outra vez aos estudos. Para tentar compreender. Para desorbitar. Para viajar.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Uma dessa, Maria

Foi ao ar. Foi voar. Aprontar a mala. Lá estava o céu. Tão distante, é tão rápido chegar até ele. Lá em cima é outro mundo e se tivesse todo ar suficiente, por ali viveria. Como aquele anjo que viu passar e dizem que é uma grande asneira acreditar neles. Acreditem no que quiserem. Aqui não dá mais. Por aqui nada protege as flores. Apenas aqueles cactos verdes dependurados na janela. Apenas eles sobrevivem ao vento gélido do extremo. Plantas fortes e valentes. Ela encontra-se num imenso espaço resguardando o sol. Fora desse mundo. Por fora da esfera, da busca por um planeta sustentável. Fora do mundinho daqueles que se escondem atrás da mentira. Dos que ganham dinheiro às ganhas, daqueles que fervilham a mesmice, a arrogância, a empáfia. A eles falta um bocado de humildade. Daqueles que se dizem poetas, profetas, daqueles que odeiam tudo o que é popular. Maria não sai só para sambar.

A revolta toma-lhe o corpo inteiro. Nada a transgride desse estado favorável a sua destreza. Não viola as leis. Não desdobra as cobertas em cima do banco. As sacolas a esperam. A sopa, as colheres e o cobertor irão finalmente aquecer quem bebe para esquecer o frio. Morde os lábios, destrói os últimos pedaços de unha, coloca seu casaco, uma meia, mais uma meia de lã, mais um cachecol, um chapéu para cobrir as orelhas, as luvas vermelhas. Vai. Distribuir a sopa quente para que enfim possam aproveitar. Sopa das melhores. Feita com frango, salsinha, batata, cenoura, massa fresquinha e aquele caldo de legumes. Maria tem fibra e também chora pelas coisas da vida.

Para depois da primeira esquina em frente às lojas de gente bacana. Com copos e colheres de plásticos, saboreia junto com aquelas pessoas desconhecidas a sopa feita com os últimos centavos do seu bolso. Um aperto no peito, a voz começa embargar e aqueles sorrisos de satisfação lhe contentam a alma, abrandam o coração. Ah, numas dessas Maria, eu te encontro e a caridade se faz. Sai a voar pelos ares longínquos da sua imaginação. Se ela não tivesse abandonado o seu dever. Bem assim, como deve ser, bem assim, do seu jeitinho. A serenar corações, transformar o dia de alguém, compartilhar um mundo, fazer sorrir, aquecer, abraçar. Tudo pelo simples fato de ajudar e mesmo assim, faltam-lhe os trocados. Numa dessas, Maria alimenta sua vida.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Sexto dia

Elena estava afundada. Livros. Papéis. Canetas. Folhas e mais folhas espalhadas pela mesa. O cigarro defumando o ambiente. Teorias. Entrava em consonância com vários autores. Aquelas linhas. Formidáveis linhas tênues que separavam o abismo. Sutis nós que se entrecruzavam nos seus pensamentos. Ali segurou. Num súbito olhar o calendário marcava o dia seis do mês.

- Putaquepariu! O aluguel venceu!

Arrecadou carteira, celular, óculos, caneta, agenda, pen drive, boletos bancários, a lista do super, da vendinha, da farmácia, do açougue. Enfiou tudo na primeira bolsa que encontrou. Fechou a porta de casa. Abriu. Colocou seu salto alto e partiu. Elena mal sabia o inferno que lhe esperava. O sol estava tomando conta da cidade. “Dentro do banco ameniza”.

Uma fila a impedia de entrar. Era ali que ela deveria ficar até chegar ao próximo andar. O homem de camiseta azul impaciente distribuía olhares. Nas mãos um cartão azul, um papelzinho surrado com uma sequência de números e letras. No rosto enrubescido as bolinhas de suor tomavam conta da testa. Chegou sua vez. O moço não ouviu. Entregou-lhe uma fichinha com números e letras que dava acesso ao segundo andar. Ali, iria resolver o seu problema. Ele tentou retrucar, saber o motivo de todo o seu dinheiro escafeder-se da conta. A fila anda.

Elena recebeu suas letras e números. Deixou o celular e a chave de casa. A porta emperrou. Voltou. Olhou dentro da bolsa. O guarda-chuva. Alcançou o homem no elevador. Esbaforida. Ele parecia mais nervoso, seus olhos, suas mãos e aquelas bolas de suor não paravam quietas. O cheiro era quase insuportável dentro daquele cubículo. O ar condicionado dentro do banco não dava conta. Procurou uma cadeira para sentar e organizar a bagunça da bolsa. O dinheiro não vai dar conta. Riscou a alface, a abobrinha, as cenouras. Os tomates estão muito caros. As vacas devem estar produzindo pouco leite. Menos duas caixinhas. As batatas duram um pouco mais. Ainda tem sabão em pó.

Ela ficou ali por mais de meia hora. Resolvendo contas, cortando ingredientes e pensando naquelas teorias que lhe esperavam. Desceu. Saiu. Sentiu um braço envolver a sua cintura. Era o homem de azul. Disse para lhe entregar o dinheiro, o celular. Disse que era um assalto. Gritou. As pessoas pareciam se afastar. O braço do homem apertava com força as dobras da sua barriga. Boca fechada e andando! Depositou toda a sua força para se desvencilhar. Ele não podia levar aquela bolsa, com o guarda-chuva, o dinheiro do super, das batatas, do leite. Cambaleou. Ele correu. Virou a esquina. As pessoas sumiram. Sentiu seu corpo inundado de raiva. Encharcado de suor, quente. O dinheiro da conta vai sumir. Maldito início de mês.