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terça-feira, 31 de agosto de 2010

A miscelânea deste novo (nosso) mundo

David Weinberger doutor em filosofia e autor do livro “A nova desordem digital”, que não ficará esquecido na estante, mas que provavelmente irá me acompanhar como um guia formidável para retornar a folhear esse amontoado de átomos de segunda ordem. Chris Anderson dá a “dica” logo na capa: “Leia este livro e entenda por que a delirante desordem em breve nos tornará mais inteligentes”.

O mundo digital, afirma Weinberger (2007) nos permite “transcender a regra mais fundamental de arrumação do mundo real: em vez de tudo ter o seu lugar, é melhor que as coisas sejam designadas a vários lugares ao mesmo tempo”. Portanto, a forma como recebemos, compartilhamos e trocamos os nossos conhecimentos e informações mudaram, já não fazemos parte de uma construção de idéias lineares. Vivenciamos isso. Na “terceira ordem da ordem” podemos trilhar nossos caminhos. Buscar, trocar, compartilhar, enfim, podemos exercer a liberdade da troca de conhecimento e informações. Temos o livre-arbítrio de deixar implícito – mesmo sabendo que desta forma estamos deixando explícitas muitas coisas que não podemos ou, não queremos falar. Na “ordem da miscelânea” o papel já não é a única fonte, colocamos em prática a seleção e o descarte em apenas um clique. Segundo Weinberger (2007, p.20) “a terceira ordem remove as limitações presumidas como inevitáveis no modo como organizamos as informações”. O mundo digital é diversificado, a realidade tem múltiplas faces, não recebemos apenas dois ou três tipos de informações, recebemos um “aninhamento”. Temos a liberdade de fazer as nossas próprias escolhas, de determinar o nosso caminho do conhecimento.

A internet ajudou a democratizar o acesso a informação, está modificando e alterando as formas de sociabilidade e de economia das sociedades tradicionais. A internet é livre, para pesquisa, pesquisadores, construção do conhecimento, de informações... Mas não está livre da censura. Acontece hoje a
blogagem coletiva de repúdio ao AI5 digital. O governo ainda não tem o controle, mas eles querem. Por isso, hoje é dia de dizer um MEGA NÃO ao PL84/09, que pretende retirar a liberdade da internet, através da censura. Participe, Leia , informe-se , divulgue. Mais de 155 mil pessoas assinaram o Manifesto em defesa da liberdade e do progresso do conhecimento na Internet .

Veja o que os Artigos colocam em risco:

OS ARTIGOS 285-A, 285-B, 163-A, 171 e 22 DO SUBSTITUTIVO DO SENADOR AZEREDO COLOCAM EM RISCO:
• a política de ampliação das redes abertas de banda larga;
• a liberdade de compartilhamento;
• a liberdade de expressão;
• a liberdade de criação;
• a liberdade de acesso;
• a privacidade;
• o anonimato.


OS ARTIGOS 285-A, 285-B, 163-A, 171 e 22 DO SUBSTITUTIVO DO SENADOR AZEREDO PODEM CRIMINALIZAR:
milhares de jovens e adultos que compartilham MP3, imagens, fotos, bits;
• centenas de ativistas e pesquisadores da cibercultura;

• qualquer pessoa que queira abrir o sinal wireless em seu condomínio;
• fanfics, fansubbers, gamers que jogam em rede;
• pessoas comuns que tiveram suas máquinas ‘escravizadas’ por crackers e não possuem conhecimento técnico para se defender;
meras condutas comuns, de interpretação subjetiva quanto a possíveis intenções ou risco de danos, desviando parcos recursos policiais do combate ao crime organizado com alta tecnologia, a verdadeira grande ameaça do cibercrime, blindando-o contra as leis já vigentes ao inviabilizar a investigação eficaz (inciso II do art. 22).


OS ARTIGOS 285-A, 285-B, 163-A, 171 e 22 DO SUBSTITUTIVO DO SENADOR AZEREDO NÃO SÃO ESSENCIAIS PARA
combater a pedofilia, que já foi tratada no projeto de lei 250/08, aprovado pelo Senado em julho deste ano, e que preenche as lacunas do Estatuto da Criança e do Adolescente. Note-se que a SaferNet, principal organização de combate à pedofilia na internet, é contra este projeto de lei 84/99 (ex-PLS 89/03).

Assine a petição e diga um MEGA NÃO para o projeto do Senador Azeredo.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Piripaque

Sexta-feira. Dois de julho de 2010. Oito horas da manhã. Um risco de sol entrava pela sacada. Vestiu sua camiseta azul com o número quatro estampado nas costas e saiu. O barulho dos carros frenéticos embrulhava seu estômago. Embaralhavam seus olhos ainda adormecidos. O sol não parecia querer esquentar. O céu completamente azul parecia solitário. As crianças serelepes a passos largos deixavam a escola. As horas passaram rápido. Os carros tentavam se esconder. As lojas fechadas. O verde e amarelo até nos cães. A cidade parou? Quase o silêncio. Aquelas máquinas jamais param. As mulheres não apareceram no salão de beleza para vibrar. O telefone não tocou na pastelaria. Sentou-se confortavelmente. Sentiu seus pés gelados. As mãos ansiosas.

Seus olhos nervosos percorriam o ambiente. As toalhas no varal, os quadros, a roupa da mulher que passava solitária pela rua, os lençóis no varal da vizinha, o suco no copo, tudo igualzinho a cor da camiseta daquele time. Jogo de futebol outra vez. Os gritos da vizinhança anunciavam o primeiro gol. Bolas na trave, expulsão, gol e mais gol. Não é comentarista de futebol, não pintou a cara, não saiu à janela para comemorar, não entende “patavinas” desta maravilha. Mas inflama o peito, arrepia-se, segue a mesma causa daqueles. E também fica perplexa frente à televisão. Pode ter sido a mulherada do salão que se ausentou na reta final. Mas será que foi o “pé frio”? Será que Jorge Cajurú, está certo? “A copa do mundo está vendida e o Brasil não vai ganhar”. Mas é qualé quié desse sentimento?

Para alguns é uma “mistureba” gostosa. Para ela, a vontade de acariciar. Acalmar o choro. Abraçar forte as tristonhas crianças que sonharam em ver pela primeira vez a seleção brasileira ganhar a Copa do Mundo. Mas eles entendem muito mais do que ela. É sensação momentânea. Na sacada a aflição. A cada lance perdido gritos, palavrões, vozes estranhas. Mas o que ecoava mais saliente era a narração de Galvão Bueno rouco, quase sem voz. Se Juan, o número quatro, não tivesse perdido aquele gol Galvão teria ficado sem voz. Felicidade geral na sacada. “Mas vem cá, tu sabe sambar?” Porque eles sambaram em um tempo só. A revanche das laranjas deu-se de fato na África. Mas o Brasil fica logo ali, em algum canto que você quiser encontrar. Sorriso no rosto, a pele morena, branca, parda, o abraço apertado, a amizade distante, força, fé, união. Ela não tem a ginga, não tem samba no pé, não tem o domínio da bola, a firula da moçada. Saiu. Com sua camiseta azul.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Pão e o meu circo

Começou. Para muitos começou apenas hoje a Copa do Mundo da FIFA. Futebol não é a sua especialidade. Aprendeu há pouco tempo o realmente sentido da “linha burra”, o impedimento que desabafa e pára a jogada; das variações táticas, de parar para ouvir os comentários em várias emissoras; aprendeu a avaliar; a ter aversão aquele Neto do sotaque carregado. Ah, mas não colabora com as discussões masculinas sobre o novo técnico que acaba de chegar no seu time. Futebol tem outro sentido. Um sentido mais sensível deste circo todo. Essa beleza que aglomera pessoas e esvazia as ruas no dia de semana, emociona, desabafa em forma de grito, som de “vuvuzelas” em salões de beleza e aperta seu coração de tanta ansiedade a cada bola na trave.

O bom de toda essa aflição é que ela só acontece a cada quatro anos. Desta forma, sua mente é recheada de lembranças, momentos, derrotas e aprendizados. Em 1994 era possível sonhar, ter ídolos, gritar, rodopiar pela sala, pintar o rosto e sentir alegria pela vitória daquele time do Bebeto, Leonardo, Branco, Tafarel (o mundo parecia tão bom, tão colorido e um pouco mais justo). Certa decepção e tristeza tomaram conta quando Leonardo num movimento brusco acertou uma cotovelada noutro jogador. Foi embora cedo demais. Pretinho, meu irmão, com quatro anos, tropeçou, caiu e machucou sua boca. E nós, fomos embora cedo demais. O Brasil conquistava seu quarto campeonato.

Em 2006 seus quatro amigos lhe fizeram companhia até os últimos segundos. Pacientemente tentavam desvendar suas dúvidas. Abraçados, seguiam confiantes naquele ônibus rumo à faculdade, levando na mochila um mundo de possibilidades. Deitados naquele gramado, num final de tarde gélido, compartilhavam daquele momento melancólico. A derrota para a França foi premeditada pelo amigo que foi embora. Aqueles meninos estavam tristes, seus rostos demonstravam isso, olhavam para o céu com olhares perdidos, o silêncio tomou conta. A festa, a outra festa, estava quase pronta. Era só aguardar. Era só a banda passar o som, a entrada para o nosso circo era logo ali. “É amigo... É Copa do Mundo!”

15 de junho de 2010. Começou a Copa do Mundo para nós brasileiros. A seleção do Brasil com um grupo fechado tão questionado por muitos, venceu a Coréia do Norte. Dois gols. Muitos chutes a gol. Impedimento, falta, cartão, emoção e o nervosismo de estréia. Os vizinhos enlouquecidos, a rua tranquila, a mulherada gritando a cada lance de ataque, e nós ali, bebendo guaraná, comendo pipoca, concentrados. Quando esperava mais um gol, foram os outros que fizeram. Um grito. Algum Coreano perdido na cidade, ou aquele vizinho que ostenta a bandeira do time adversário na sua sacada. Domingo tem mais, Costa do Marfim. Futebol. Teoria. Prática. Emoção. Paixão. Surpresa. Vitórias.
Ganhei amigos. Fortalecemos a nossa amizade mesmo a distância, eles estão bem pertinho. Ganhei bichos ronronantes, um amigo-amante que me ensina a cada dia mais sobre esse mundo futebolístico; conquistei tantas outras coisas, mas aqueles momentos não se apagam da minha memória. O bom desse mundo futebolístico também é reviver e ter boas estórias e histórias para contar nos próximos quatro anos, ter paixões para alimentar, alegria para gritar, vibrar, opinar na escalação, ter alguém por perto para abraçar. Queremos mais pão e circo, aqueles amigos reunidos, você meu amigo, meu amor, Pretinho, aqueles felinos, aqueles sons irritantes e as emoções de sempre. Enquanto isso, a cá, um time recebe um treinador. É amigo, isso é o Futebol!